Acabou a pausa do Carnaval. O tempo esteve bestialmente bom, o frio abandonou-nos por algum tempo, o sol radiante banhou-nos com uma luminosidade estival. Ao menos isso. A natureza é muito mais agradável do que o Homem.
Estava com o espírito bastante satisfeito, julgando estar suficientemente relaxada, e congratulei-me com a façanha. Passado este dia, sem contratempos, eis senão quando dou por mim irritadiça ao final do dia. A saltar em defesa própria e em impropérios a cada contrariedade.
Fiquei perplexa! Dei por mim a meditar em tal assombração.
Dou-me então conta de estar contaminada. Contaminada pelo mau humor e descontentamento dos outros. Ouvi, o dia todo, de modo complacente, as queixas, os desabafos, as agruras de outros. Têm muita razão no seu desespero. A amargurea é séria e geral. Está devidamente contextualizada. É incontornável. Todas as conversas, discursos e observações vão dar ao desatino quotidiano. À frustração rançosa que nos desfaz, dia após dia. Dou por mim a olhar as pessoas. Estão desgastadas físicamente. Exauridas psicologicamente. Envelhecidas. Há um pânico real, palpável. Uma sombra que reflete, em murmúrios, o receio de muitos: “Fulano está de baixa. Cancro.” – “Sicrana teve um esgotamento.” – ” Beltrano, passou-se. Está por um fio. Devia ir para casa e tratar-se”.
Confesso que considero este ano um ano calmo, sem sobressaltos de maior. Mas o desgaste dos últimos anos deixou uma profunda cicatriz nas pessoas em geral e nas escolas em particular.
As pessoas devoram-se com contrariedade que não estão ao seu alcance resolver, são obrigadas a agir de forma que não gostam e roem-se, roem-se por dentro e por fora. Consomem-se!
Um país inteiro a consumir-se por dentro.
Respiro o mesmo ar. Bebo da mesma água.Não sou cega, nem surda. Finjo-me de muda. E isso custa.

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About Elsie

Este blog serve mais para desabafar, trocar ideias e experiências com outros que sofram da mesma doença (distrofia de Fuchs), recolher informação, listá-la e assim, se puder, ajudar outros na mesma situação. Não é um blog de informação médica. Não tenho formação para isso. Sou professora, simples professora. E, como nos tempos que correm, ser professor se tornou quase uma doença, vão aparecer também questões, informações e desabafos sobre Educação. Sobre Educação ou sobre qualquer outra coisa que me toque a alma.

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