Estava excitadíssima. Era a primeira vez que ia sozinha até Lisboa. Tinha 9 anos e ia ter com a mãe que esperava à saída do pontão dos cacilheiros. Fora bem explícita, não deveria sair de casa antes das quatro e meia. Seria cedo demais. Chegada a Lisboa, não deveria sair da estação dos cacilheiros. Isto se, por algum acaso, chegasse antes da mãe. Levava dinheiro suficiente para uma ida e volta de cacilheiro. 5 escudos.
O dia quente de Julho espelhava em topázio no Tejo e, a tremer de alegria, escolheu ficar no 1º andar descoberto, impante por se sentir tão autónoma, tão tremeluzente como as águas do rio. Aguardou que o cobrador viessse cobrar os 25 tostões do bilhete. Quando este confirmou que estava sozinha, piscou um olho e sussurrou entre dentes, compra antes um gelado. No cais, mais tremeliques que num dia de vendaval, com um coraçãozinho em batuque tresloucado, dirigiu-se até ao pontão, arrastada pela multidão apressada. No alto do velho pontão de madeira, que gemia sob a manada, a mãe perscrutava, ansiosa, os passageiros. Na testa uma ruga funda de preocupação que voltava a aparecer no lábio inferior desapareceu do semblante quando viu a filha sorridente à sua frente.
33 anos depois a mãe já avó, com a mesma ruga da testa até ao lábio inferior, esperava a neta no terminal de expresso. A menina de 9 anos, entrara 4 horas antes no autocarro pela mão da mãe. A alegria dera lugar a um formigueiro tremendo – os pais ficaram para trás, o motorista apresentava-se e indicava-lhe o lugar, viu-se sozinha num ápice, enquanto que os pais perscrutavam os vidros fumados do autocarro que partia. Tacteou orgulhosa a malinha onde tinha o dinheiro, os documentos e um telemóvel (Uau! Um telemóvel!). Uau, Ia sozinha para Lisboa. Por fora uma rapariga forte, por dentro um pardalito que, irritante, só deixou de tremer quando viu o sorriso orgulhoso e aliviado da avó.
A primeira travessia solitária do Tejo em cacilheiro da mãe, 3 décadas antes, demorara 50 minutos, a viagem solitária de expresso até Lisboa mais de 4h. Mas é como se tivessem escalado o Kilimajaro ou feito uma expedição ao Amazonas. Um dia, quem sabe, farão juntas estas verdadeiras aventuras.

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About Elsie

Este blog serve mais para desabafar, trocar ideias e experiências com outros que sofram da mesma doença (distrofia de Fuchs), recolher informação, listá-la e assim, se puder, ajudar outros na mesma situação. Não é um blog de informação médica. Não tenho formação para isso. Sou professora, simples professora. E, como nos tempos que correm, ser professor se tornou quase uma doença, vão aparecer também questões, informações e desabafos sobre Educação. Sobre Educação ou sobre qualquer outra coisa que me toque a alma.

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